(Esta sugestiva gravura foi extraída do blog Relicário Eclético) |
GUIMARÃES ROSA
60
anos do lançamento da
obra-prima
"GRANDE SertãO: Veredas”
Guimarães Rosa são muitos
Guimarães Rosa são muitos
Cesar Vanucci
“Mexendo em velhos papéis, encontrei um texto precioso de Guimarães
Rosa...”
(Luiz de Paula Ferreira, escritor)
Entendi oportuna a reprodução neste espaço de uma sequência de artigos
que publiquei tempos atrás, focalizando o lado místico da obra de Guimarães
Rosa. O mundo literário está celebrando, nestes dias, os 60 anos do lançamento
do clássico “Grande Sertão, Veredas”. Na Amulmig, 19 de novembro, sábado, num
concorrido encontro interacadêmico, a que estiveram presentes o Secretário de
Estado da Cultura Ângelo Oswaldo e outros destacados personagens da seara
intelectual mineira, a memória do célebre escritor foi devidamente
reverenciada.
O primeiro artigo da série acima mencionada é o que se segue: Guima são
muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser
regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos,
nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os
horizontes ilimitados da obra do autor de “Grande Sertão: Veredas”, com
descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte
de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um
gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e
soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir,
certeiramente, as profundezas da alma humana.
Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa
vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar -
categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e
arrebata - essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu
legado de ideias.
Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas.
Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de
consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida,
inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de
perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de
agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões
anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências
simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar
incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos
achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias
eletrizantes.
E eis aqui, agora, devidamente apresentado ao respeitável público, um
Guimarães Rosa de insuspeitados (e confessos) envolvimentos com as
manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A
intrigante revelação chegou-me por intermédio de um respeitado intelectual, com
apreciável contribuição à causa da cultura. O meu dileto amigo, Luiz de Paula
Ferreira, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas, figura
de relevo na cena empresarial. A carta que me enviou diz tudo: “Prezado Cesar,
Mexendo em velhos papeis, encontrei um texto precioso de Guimarães Rosa,
publicado décadas atrás no “Estado de
Minas”, citando fenômenos paranormais presentes na vasta produção literária que
lhe valeu merecidamente ser incluído na relação dos 100 maiores escritores de
todos os tempos. Conhecendo seu gosto pelo estudo de fenômenos dessa natureza,
estou anexando o texto que é muito rico e merece ser avaliado e divulgado em
suas crônicas. Referindo-se ao “Grande Sertão: Veredas”, ele diz: “Quanto ao
“Grande Sertão: Veredas”, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer
como foi ditado, sustentado e protegido por forças ou correntes muito
estranhas.” Do amigo, Luiz de Paula Ferreira”.
No artigo em questão, Guimarães solta o coração para confissões que
abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus
“sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda
a sorte de avisos e pressentimentos.” Um texto preciosíssimo que deixa
evidenciados, em boa interpretação parapsicológica, os dons paranormais de que
o escritor era, indiscutivelmente, possuidor.
Na sequência, a reprodução desse texto notável.
O lado místico de Guimarães
Cesar
Vanucci
“Sua obra
suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor.”
(Paulo Rónai)
Conforme contado pratrazmente, Guimarães Rosa confessou, anos atrás, em
artigo no “Estado de Minas”, seu entranhado envolvimento com fenômenos ligados
às percepções extra-sensoriais. Do inusitado texto ressalta claro que sua obra
literária – obra que “suscita mais tentativas de decifração do que a de
qualquer outro escritor”, segundo Paulo Rónai – foi marcada, desde sempre, por
intuições e impulsos mágicos, de nítida configuração parapsicológica,
inexplicáveis à luz do conhecimento convencional.
Mas já é tempo de satisfazer a curiosidade do leitor a respeito da
confissão do autor de “Sagarana”, falando de seus singulares dons. O artigo de
Guimarães Rosa tem por título “Vida – arte – e mais?”.
“Tenho de segredar que – embora por formação ou
índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em principio rechace
a experimentação metapsiquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil
gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas
fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de
topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.
No plano da arte e criação – já de si em boa parte
suplinar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente
às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez
seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem
entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase
inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois
(Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substuindo-se a penosa versão
diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerara como
definitiva ao ir dormir na sexta. A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias)
veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que
instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo
ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita
no papel, quando em brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de
fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas
ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e,
chegada ao fim, espantou-se a simetria e ligação de suas partes. O tema de O
Recado do Morro (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no
estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava, talvez também sob
razoável ação do vinho ou do conhaque. Quanto ao Grande sertão: Veredas, forte
coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e
protegido – por forças ou corrente muito estranhas.
Aqui, porém, o caso é um romance, que faz anos
comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do
século passado, em antiga cidade de Minas Gerais, e para ele fora já ajuntada e
meditada à massa de elementos, o teor curtido na ideia, riscado o enredo em
gráfico. Ia ter principalmente, cenário interno, num sobrado, do qual –
inventado fazendo realidade – cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se
na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado. Mas foi
acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A
personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase
cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério
medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e o que se referia,
trouxou-se em gaveta. Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses,
ano-e-meio, ano – adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador!
Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam.
Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem
toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara, e
decorara, visualizado freqüentando-o por oficio. Sei quais foram, céus, meu
choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”
Acontecências paranormais
Cesar Vanucci
“...forte coisa e comprida demais seria tentar
fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido por forças ou
correntes muito estranhas.”
(Guimarães Rosa, em artigo publicado décadas atrás)
Restou
cabalmente provada, no depoimento do próprio autor, reproduzido neste acolhedor
espaço, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa
frequência, latitudes superiores na captação das energias sutis que compõem
este nosso universo povoado de inexplicabilidades. Energias essas ainda
indecifráveis do ponto de vista do conhecimento científico aceito.
Depois de
anotar que, por formação ou índole costumava opor “escrúpulo crítico a
fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida,
sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos.” E que fatos tão
singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase
à reza”, são mesmo esses, afinal de contas? A resposta chega de imprevisto,
fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial
dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas
ou enigmáticas: “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas
fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”
Foi, por
exemplo, num sonho premonitório, “duas noites repetido”, que a estória de
“Buriti”, constante de “Noites do Sertão”, tomou forma em 1948. É o que atesta,
com franqueza e sem rebuços, o autor de “Tutaméia”. Os estudiosos dos fenômenos
abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a
faculdade de precognição entre os dons singulares do escritor. E qual
classificação atribuir ao relato de Guimarães concernente a “Conversa de bois”,
do enredo de “Sagarana”? “(...) Recebi-a, em amanhecer de sábado,
substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de
carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”,
sublinha o autor. O ato de haver “recebido” dá o que pensar. Esse mesmo
processo intrigante de “recepção”, dir-se-á (à falta de definição melhor)
mágica, ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de
Guimarães, segundo informações dele próprio. É assim em “A terceira margem do
rio” (“Primeiras estórias”). Assim, igualmente, em “Campo Geral”. (“Miguelim e
Manuelzão”). Uma das estórias brotou na rua, “em inspiração pronta e brusca”,
vinda “de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (...) “e, chegada ao
fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”. Será que a hipótese da
“escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como
tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de
alguma maneira, com um “esclarecimento” que me foi passado, de certa feita,
pelo consagrado autor espanhol J.J.Benitez? Perguntei-lhe em quais fontes se
inspirara para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga
“Operação Cavalo de Tróia.” Pelo que deduzi da resposta, tudo provinha de um
manancial de conhecimentos existente num plano superior. As informações teriam
sido obtidas por percepção extra-sensorial, um tipo de “canalização” ainda não
devidamente codificado. Guimarães Rosa parece querer dizer coisa parecida em
seu artigo, quando fala de “Grande Sertão: Veredas”: “(...) forte coisa e
comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e
protegido – por forças ou correntes muito estranhas”.
A
precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de um outro romance que “faz
anos, comecei e interrompi”: (“A fazedora de velas”). A doença que veio a
acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de
uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance,
causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das
fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas
pelo genial Guimarães Rosa.
Não há como
negar: as desconcertantes revelações acerca da paranormalidade do escritor,
ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua
fabulosa obra.
Mais um texto inédito
de Guimarães
Cesar
Vanucci
“...
este soneto é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.”
(Carta
de Guimarães Rosa ao amigo Honório Armond, cognominado “Príncipe dos Poetas”)
Diletos
amigos os responsáveis pela dadivosa ajuda, em ocasiões distintas, à tarefa
cotidiana afanosa (posto que prazenteira) assumida por este articulista de
colocar em letra de forma, três vezes por semana, suas prosaicas interpretações
das coisas da vida. A primeira colaboração veio do conceituado escritor e
empresário Luiz de Paula Ferreira. Pertence-lhe o mérito da “redescoberta” de
um texto todo especial, publicado a mais de meio século, em que Guimarães Rosa
confessa sem rebuços suas entranhadas vinculações com a chamada temática
transcendente. O recorte de jornal que Luiz teve a gentileza de enviar-me,
contendo a intrigante revelação, rendeu
as considerações alinhadas nos três últimos artigos estampados neste acolhedor
espaço.
De
outro estimado amigo, o respeitado escritor e professor José Dias Lara, recebi
também cópias de outros textos inéditos de Guimarães Rosa, datados de 1932. Não
se trata de escritos caracterizadamente literários, mas de saborosas mensagens
coloquiais, com timbre bastante afetuoso, assinadas pelo médico doutor João
Guimarães Rosa. Cuidarei de reproduzi-las adiante.
O
texto de Guimarães Rosa do qual me ocuparei neste comentário chegou-me às mãos
trazido pelo companheiro Roberto Henrique Corrieri, engenheiro renomado.
Trata-se da cópia de uma outra manifestação, igualmente inédita, do autor de
“Grande Sertão: Veredas”. Numa correspondência de próprio punho, datada de 11
de janeiro de 1935, endereçada ao fraternal amigo Honório Armond, Guimarães
reporta-se a dois poemas, redigidos em francês, que lhe foram dedicados pelo
grande vate barbacenense, reconhecido no mundo literário como “Príncipe dos
Poetas”.
O
primeiro dos poemas de Armond tem introdução em latim. Rosa, na carta, reproduz
os sonetos de Armond, acrescentando comentários com toques bem humorados. Os
registros que se seguem são do autor de “Tutaméia”.
“Honório ingrato,”
(Seguem
formidáveis peças da poesia nacional):
Une
femme passa (complainte)
“Tibi,
carissime Johannes,
in
memoriam fraternae,
amicitiae,
dicat, offert,
conscient certus memor
que amicus, Honorie”
(Depois da dedicatória, em latim, vista acima,
vem o poema em francês).
O soneto seguinte tem
como título Mon âme a tou âme, todo,
também em francês. Guimarães Rosa
capricha na caligrafia ao transcrevê-lo.
Registra, após, as considerações abaixo, que obedecem à ortografia
vigente na época.
“Nota do copiador: este soneto é simplesmente
admirável, “chef-d´ouvre”, é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.
Prompto! Estou fremindo
de enthusiasmo, e nem comprehendo como foi possível que duas maravilhas dessas
pudessem ter sido dedicadas a mim!
Milagres da amizade!...
É escusado dizer que
faço absoluta, terminante, feroz questão de que sejam publicados com as
dedicatórias! Veja lá! Recomende expressamente aos seus amigos da
revista! Quando muito, você poderá, si
achar melhor, encurtar a dedicatória latina da “Complainte”, si a achar muito
louca! Si forem sem dedicatória, irei
ahi para desafial-o em duelo!...
Outra coisa: faço
questão de receber o número da revista que os publicar! Olhe que isso é um assumpto muito
sério... essas poesias são minhas! Não escrevo carta, porque e ainda estou
esperando resposta da minha!...
Recomendações à exma.
sra. Abraços para Zezé e Beatriz. Um apertado abraço de seu Guimarães Rosa.”
Na sequência, a reprodução dos textos de Guimarães Rosa enviados pelo
professor Lara.
Receitas do médico
Guimarães Rosa
Cesar
Vanucci
“Uma
pequena preciosidade!”
(Professor José Dias Lara, estudioso da
obra de Guimarães Rosa)
Retorno
prazerosamente a Guimarães Rosa. Ocupo-me agora de uma outra faceta da
fascinante saga vivida pelo genial compatriota.
Registrei
pratrazmente que o ilustre escritor e educador José Dias Lara, ex-governador do
Lions Clube, membro da Academia Mineira de Leonismo, onde ocupa cadeira que tem
Rosa como patrono, presenteou-me há tempos, consoante suas próprias palavras,
com uma verdadeira preciosidade. Uma sequência de cartas assinadas pelo médico
doutor João Guimarães Rosa.
Datadas
de 1932, redigidas em tom saborosamente coloquial, foram endereçadas a um amigo
dileto do missivista, fazendeiro Manoel Carvalho, chefe político na região de
Itaguara. A fazenda Mambre, várias vezes mencionada nas correspondências,
ficava localizada na divisa de Itaguara com Itatiaiuçu.
Ouçamos
o que diz a propósito o professor Lara: “Sabe-se que Guimarães era de falar
pouco e escrever muito, particularmente cartas. Era um missivista de escol. E
isto já fazia bem antes de tornar-se o notável escritor que todos conhecemos.
Ainda era o doutor João, médico em Itaguara nos idos de 1932; são desse tempo
as cartas de que lhe envio algumas cópias – uma pequena preciosidade -, uma
delas até com uma fórmula medicamentosa para manipular. Linguagem simples para
seu povo muito simples. Eram os primeiros passos de um bom médico, que se fez
grande nas letras nacionais.”
O
destinatário de todas as cartas, redigidas pela ortografia vigente na época, em
caligrafia firme e desenvolta é – com já dito – um cidadão de nome Manoel, de
Itaguara, local onde o médico Guimarães Rosa clinicou. O grau de amizade do
autor das cartas com o fazendeiro era bastante acentuado, como se pode deduzir
dos dizeres registrados. Acompanhando, como médico, o tratamento de alguém
próximo ao amigo Manoel, o doutor João Guimarães Rosa recomenda procedimentos
terapêuticos a serem observados. Adiciona, até mesmo, receitas caseiras, de uso
corrente naqueles tempos.
A
reprodução das duas primeiras cartas-receitas vem na sequência. As outras ficam
pra depois.
A
primeira carta-receita: “Itaguara, 22 maio 932. Prezado Manoel, Abraços, Seguem os apetrechos.
Faça o serviço com jeito, e mande-me a ferramenta logo depois. Explique ao povo
da casa o modo de usar os remédios.
Recomende quanto à hygiene. Mande fazer também uma
lavagem intestinal. Será bom você mandar-me uma informaçãozinha por escripto.
Recomendações aos seus. Abrace por mim o velho. Estou com saudade do agradável Mambre
e, principalmente, dos seus bondosos moradores. Muito grato por todas as
finezas; desculpe-me os incômodos. Do amigo J. Guimarães Rosa”.
A segunda
carta-receita: “Prezado Manoel,
cumprimentos aos seus. Continue a mandar fazer as lavagens intestinaes, bem
como as vaginaes. A doente deve tomar, na maior quantidade possível, chá de
cabellos de milho adoçado. A alimentação deve ser reforçada, com prudência,
porém. Um apertado abraço do amigo Guimarães Rosa!”
Mais receitas do doutor
Guimarães Rosa
Cesar
Vanucci
“... aplicar
angús quentes no logar da dor.”
(Prescrição
para paciente tratada pelo escritor-médico)
Esta crônica,
assinalando o epílogo de uma série produzida com o objetivo de celebrar
singelamente os 60 anos do lançamento da obra prima “Grande Sertão: Veredas”,
ocupa-se de novos textos inéditos de Guimarães Rosa. Não se trata, como visto
no artigo anterior, de escritos literários, mas de mensagens coloquiais, em tom
afetuoso, na ortografia vigente à época, assinadas pelo médico doutor João
Guimarães Rosa. Ele exercia a profissão em Itaguara, interior deste imenso país
das Gerais. O destinatário, amigo dileto, era o fazendeiro Manoel Carvalho,
chefe político conceituado na região. A fazenda Mambre, citada várias vezes nas
correspondências, ficava localizada na divisa de Itaguara e Itatiaiuçu.
Em carta de
25 de maio de 1932, Guima refere-se ao amigo como “um bom enfermeiro e um bom
informador” e recomenda à paciente sob seus cuidados “lavagem intestinal” com
“água fervida, ou cozimento de rosas”. Este o texto:
“Itaguara, 25 de maio de 932 Prezado Manoel, Um
abraço apertado. Primeiramente, ardorosos parabens, pois você tem sido um bom
enfermeiro e bom informador. Quanto à doente: deve ir se alimentando com
canjas, caldo de frango, mingáu de fubá com leite, café com leite, sopa de
macarrão bem cozido etc, porque a moléstia é demorada e a doente necessita de manter
as forças. Mesmo sem appetite, deve insistir. Deve fazer nova lavagem
intestinal, com litro de água fervida, ou cozimento de rosas. Vão novos papeis
para lavagens vaginaes. A injecção não póde falhar nenhum dia, amanhã póde
falhar a informação, só isso. Quando a febre estiver mais alta, a doente deverá
tomar um banho morno de corpo todo, enxugando-se bem depois. Os remédios
(poções) devem ser tomados sem interrupção, e, terminado o conteúdo dos vidros
deve vir o portador para reformal-os. Continue: - Hygiene.... Hygiene.... si
fôr possível. Abrace todos os seus em meu nome. Do amigo Guimarães Rosa.”
Na carta
seguinte, 29 de maio do mesmo ano, o médico Guimarães Rosa fala de seu imenso
carinho pelo pessoal da fazenda.
“Distinto Manoel, Gloria! Fico bem satisfeito de
saber das melhoras apresentadas pela doente – melhoras devidas em parte aos
cuidados enérgicos do amigo, que tem sabido informar-me magnificamente da
marcha da moléstia. Si as dores nas pernas continuarem, veja si há alguma
novidade no local dolorido (inchação branca e dura), pois pode tratar-se de uma
phlebite puerperial. De qualquer maneira, caso a dôr continúe, a doente deverá
manter-se em repouso rigorosissimo, podendo applicar angús quentes no
logar da dor. No mais, continue, que está bem orientado. Distribua um punhado
de abraços entre o pessoal do Mambre, sendo um abraço maior para o seu Chico e
um outro para você. Até outra vez. Guimarães Rosa.”
Na missiva
posterior (03.06.1932), o médico Guimarães Rosa prescreve uma receita caseira,
indicando os ingredientes da manipulação a ser feita.
“Prezadissimo Manoel, cordiais cumprimentos. Seguem
novos remédios para a enferma. É preciso que ella vá se alimentando bem, com as
devidas cautelas, naturalmente, para que a causa não desande em vez de andar.
Não deixe de mandar informações por mais uns três dias, principalmente
temperatura e pulso. Mande fazer diariamente uma lavagem intestinal. E, fallo
sem intuito de envaidecel-o, póde você estar certo de que a cura da doente
deverá, em grande parte, ser agradecida ao enfermeiro. Pudesse eu ter sempre á
mão um auxiliar assim! Quanto á crioula, si você quizer experimentar ainda,
póde dar a ella: Uso interno Elatério
- 0,50 .....; Rhuibarbo
preto -
1,0 gr; Estr. de fel de boi
- qsp para 20 pilulas. Dar 1 de
2/2 horas. Conjuntamente devem ser dadas umas 3 injecções de óleo camphorado.
Provavelmente o resultado será bom. Até breve. Abraça por mim a todos os
mambrenses, principalmente o velho. Do amigo Guimarães Rosa Itaguara, 3 de junho de 932.”
Interessantíssima,
sem dúvida, essa série de cartas-receitas que o professor José Dias Lara,
estudioso da vida e obra de Guimarães Rosa, teve a gentileza de enviar-me e que
com satisfação trago ao conhecimento de meu reduzido, posto que leal e assíduo,
leitorado.
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